As OBT e a experiência do viajante evoluem ao mesmo ritmo?

As ferramentas de autorreserva tornaram-se uma peça fundamental no âmbito dos programas de viagens empresariais. Permitem melhorar o controlo, facilitar o cumprimento da política de viagens, otimizar custos e proporcionar uma experiência mais ágil ao viajante. Contudo, à medida que estas plataformas evoluem, surge uma pergunta cada vez mais relevante: as OBT e a experiência do viajante evoluem ao mesmo ritmo?

Os mais recentes estudos desenvolvidos pela BCD Travel Research & Intelligence, elaborados a partir de inquéritos realizados junto de travel buyers e de viajantes empresariais durante o ano de 2026, revelam uma realidade interessante. Empresas e viajantes concordam na importância da autorreserva, mas nem sempre valorizam as mesmas funcionalidades nem têm as mesmas expectativas em relação a como deve ser a experiência digital. Esta diferença de prioridades pode transformar-se numa barreira para a adoção e para o êxito dos programas de viagens empresariais.

Os gestores de viagens e os viajantes nem sempre procuram as mesmas coisas

Um dos pontos que mais chamou a atenção nos relatórios da BCD foi o facto de os travel buyers e viajantes empresariais valorizarem de forma diferente as possibilidades que uma ferramenta de autorreserva (OBT) deveria disponibilizar.

Da perspetiva da empresa, as prioridades estão muito associadas à gestão do programa de viagens. As funcionalidades mais valorizadas são:

  • Apoio baseado em inteligência artificial (56%)
  • Conteúdo alinhado com a política de viagens (53%)
  • Maior amplitude de conteúdos e fornecedores (49%)
  • Comunicação integrada com o viajante (47%)

Os viajantes, pelo contrário, têm uma visão mais prática e centrada na sua experiência diária. O que mais valorizam é:

  • O cumprimento da política de viagens da empresa (71%)
  • A gestão de alterações e incidências de forma simples (56%)
  • A integração com ferramentas de controlo de despesas (54%)
  • O acesso a preços competitivos (46%)

Existe um ponto de encontro evidente: a conformidade continua a ser uma prioridade para ambas as partes. No entanto, surgem diferenças significativas noutros aspetos. Enquanto as empresas colocam o foco nas capacidades estratégicas e de gestão, os viajantes priorizam a simplicidade, a flexibilidade e a rápida resolução de problemas. Este desfasamento ajuda a compreender por que motivo a adoção de determinadas funcionalidades nem sempre avança ao ritmo esperado.

Por que motivo os viajantes frequentes são os mais críticos relativamente às OBT

Poderia pensar-se que os que mais utilizam as ferramentas empresariais são também os que mais satisfeitos estão com elas. Não obstante, os dados apontam em sentido contrário.

Os viajantes frequentes (os que fazem mais de sete viagens por ano) apresentam níveis de satisfação inferiores aos dos que viajam ocasionalmente. Cerca de 16% declaram-se insatisfeitos com a ferramenta empresarial, em comparação com apenas cerca de 7% entre os viajantes menos frequentes.

Além disso, identificam mais limitações na sua experiência de utilização:

  • Resultados de pesquisa pouco satisfatórios (40%)
  • Preços menos competitivos do que noutros canais (38%)
  • Opções limitadas de disponibilidade ou de conteúdos (35%)
  • Dificuldades para comparar alternativas (29%)

Talvez o dado mais relevante seja que estes viajantes também têm maior propensão para procurar alternativas fora do canal empresarial. Apenas 68% afirmam utilizar sempre as OBT para reservar as suas viagens, em comparação com 75% dos viajantes menos frequentes.

Isto reforça uma ideia que já tínhamos abordado no nosso artigo sobre Autorreserva em viagens de negócios: o desafio está na adoção. O êxito de uma ferramenta não depende apenas da sua implementação tecnológica. Depende do facto de o viajante perceber o que confere valor em comparação com as alternativas que se encontram disponíveis no mercado.

A IA ganha protagonismo, mas ainda não lidera as prioridades do viajante

A inteligência artificial está a transformar praticamente todos os âmbitos do contexto empresarial e as viagens de negócios não são uma exceção. Porém, os dados revelam que a sua adoção por parte dos viajantes ainda é limitada.

Atualmente, apenas cerca de 22% dos viajantes utilizam a inteligência artificial para planificar ou reservar viagens de negócios, seja de forma ocasional, seja habitual. Além disso, a utilização que fazem desta tecnologia é bastante específica:

  • Pesquisar e comparar opções de viagem (59%)
  • Planificar itinerários (58%)
  • Obter recomendações personalizadas (36%)

Por outro lado, são poucos os que utilizam a IA para:

  •  Reservar diretamente uma viagem (13%)
  • Gerir alterações ou cancelamentos (10%)

Este dado torna-se especialmente interessante quando comparado com a visão dos travel buyers. Como vimos, o apoio baseado na IA surge como a funcionalidade mais solicitada pelas empresas, enquanto apenas cerca de 6% dos viajantes a consideram uma capacidade prioritária dentro de uma OBT.

A conclusão não é de que a IA não tem valor. Muito pelo contrário. O que os dados demonstram é que ainda existe uma diferença entre as expectativas empresariais e a utilização real que os viajantes fazem destas tecnologias.

A experiência do viajante continuará a marcar o êxito das OBT

As ferramentas de autorreserva continuarão a evoluir. Haverá mais inteligência artificial, mais automatização e uma integração cada vez maior com outros sistemas empresariais. No entanto, os relatórios da BCD Travel sugerem que a solução continuará a estar na experiência do utilizador.

Os viajantes querem ferramentas que:

  • Sejam intuitivas
  • Ofereçam conteúdos competitivos
  • Facilitem as alterações quando surge um incidente
  • Se integrem com os processos administrativos da empresa
  • Lhes permitam viajar com menos atritos

Esta realidade está diretamente ligada a outras tendências que analisámos recentemente, como a importância da experiência digital na Geração Z, o papel do apoio humano na gestão de viagens ou a necessidade de fomentar a adoção real das ferramentas empresariais.

Porque, no fundo, a tecnologia não se mede apenas pelo que é capaz de fazer. Mede-se pela capacidade que tem para resolver necessidades reais.

Tecnologia, experiência e acompanhamento: o equilíbrio necessário

A evolução das OBT demonstra que o futuro das viagens de negócios não passa exclusivamente por incorporar novas funcionalidades. Passa por compreender melhor o viajante e conceber ferramentas que respondam às suas expectativas sem perder de vista os objetivos empresariais.

A BCD acredita que as melhores experiências de viagem nascem da combinação entre tecnologia avançada e acompanhamento especializado. As ferramentas digitais permitem ganhar eficiência, melhorar a conformidade e proporcionar mais autonomia ao viajante. Mas o fator humano continua a ser essencial para interpretar necessidades, resolver incidências e conferir valor nos momentos verdadeiramente importantes.

Porque o êxito de uma OBT não se mede apenas pelas suas capacidades. Mede-se pela experiência que proporciona às pessoas que a utilizam diariamente.

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