Um novo estudo do Travel Market Report da BCD oferece uma atualização sobre a evolução do tráfego aéreo mundial após a crise do Médio Oriente e analisa de que forma as tensões geopolíticas estão a impactar a procura, os custos operacionais e os hábitos de viagem dos passageiros.
Observação do tráfego aéreo global
Embora o setor aéreo já mostre sinais de desaceleração desde 2025, os acontecimentos recentes no Médio Oriente acrescentaram um fator de incerteza a um mercado que ainda procura consolidar o seu crescimento. Os dados refletem uma queda do tráfego aéreo global de 3,4%, prolongando uma tendência descendente que se iniciou no ano passado. Contudo, as previsões mostram uma moderação deste abrandamento: para 2026, é esperada uma queda de 4%, em comparação com 5% em 2025.
A região do Médio Oriente foi, sem dúvida, a mais afetada. O tráfego aéreo na zona experienciou uma queda de 46,6%, um número que revela o impacto direto que os conflitos geopolíticos têm sobre a conetividade aérea. As restrições do espaço aéreo, as alterações de rotas e a perceção de insegurança reduziram significativamente a atividade numa das regiões mais estratégicas para as conexões internacionais.
A nível mundial, a principal fonte de debilidade continua a ser o segmento internacional. Tradicionalmente, os voos de longa distância foram um dos motores de crescimento da indústria, mas atualmente são os que mais sofrem as consequências da incerteza geopolítica. Não obstante, o tráfego nacional tampouco escapou a esta tendência. Depois de crescer 6% durante o mês de fevereiro, a procura de voos nacionais registou uma queda em abril, demonstrando que o impacto da situação internacional se estende também aos mercados internos.

A mudança nos padrões de viagem: destinos mais próximos e maior sensação de segurança
Um dos aspetos mais interessantes que o relatório destaca é a evolução do comportamento dos passageiros. Longe de abandonar os seus planos de viagem, os consumidores continuam a reservar voos e a organizar as suas férias. Na verdade, as reservas para o período entre junho e setembro superam as registadas entre março e abril.
Este dado sugere que nem o conflito com o Irão nem o aumento do preço do combustível travaram significativamente a intenção de viajar. No entanto, provocaram mudanças nas preferências dos passageiros.
A tendência mais evidente é a procura de destinos mais próximos do local de residência. Os viajantes parecem optar por deslocações que lhes permitam desfrutar das suas férias enquanto minimizam riscos e incertezas. A segurança tornou-se um fator determinante na tomada de decisões, especialmente num contexto em que as notícias sobre conflitos internacionais têm uma repercussão imediata na perceção do consumidor.
Este fenómeno é especialmente visível na América do Norte e na Europa. Em ambas as regiões, as reservas para viagens internacionais de longa distância diminuíram, enquanto as relacionadas com destinos regionais ou próximos aumentaram. Por outras palavras, os utilizadores não estão a deixar de viajar, mas estão a adaptar as suas decisões para priorizar os destinos que consideram mais estáveis, acessíveis e seguros.
Trata-se de uma mudança relevante para a indústria turística, que poderá consolidar uma tendência para o turismo de proximidade e as viagens regionais, num contexto de crescente incerteza global.

Mais custos operacionais e menor rentabilidade para as companhias aéreas
A crise também está a impactar diretamente na estrutura de custos do setor aéreo. Um dos principais motivos foi o encerramento do Estreito de Ormuz, uma das rotas energéticas mais importantes do mundo, que provocou interrupções no abastecimento de combustível e um aumento de preços que, em determinados momentos, chegou ao dobro.
Para as companhias aéreas, cujo combustível representa uma das rubricas mais importantes de despesa, este cenário implica um importante desafio financeiro. A isso une-se a necessidade de modificar várias rotas para evitar zonas de conflito, o que implica voos mais longos, maior consumo de combustível e aumento dos custos operacionais.
Além disso, as alterações do espaço aéreo obrigaram as companhias aéreas a repensar continuamente as suas operações para garantir a segurança e minimizar atrasos. Tudo isso está a gerar um contexto muito mais complexo para a gestão das rotas internacionais.
Apesar destas dificuldades, a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) assinala que a predisposição dos passageiros para viajar continua a ser positiva. Contudo, as previsões de crescimento foram ajustadas de forma notável. As estimativas para o tráfego de passageiros passaram de um crescimento previsto de 5,3% para apenas 2,1%, refletindo uma desaceleração significativa do mercado.
Paralelamente, as companhias aéreas deverão enfrentar uma redução das suas margens de rentabilidade. O aumento dos custos, junto com uma procura internacional mais moderada, poderá traduzir-se em menores lucros para grande parte do setor durante os próximos meses.
A pontualidade continua a ser uma força do setor
Apesar destes desafios, as companhias aéreas continuam a demonstrar uma capacidade notável de adaptação operacional. O estudo também analisa a pontualidade das companhias aéreas a nível global, um dos indicadores mais relevantes para avaliar a qualidade do serviço e a eficácia operacional.
Com base numa amostra de 140 companhias aéreas, 80,8% dos voos chegaram ao seu destino dentro do horário previsto. Um resultado especialmente destacável se for considerado o contexto atual de restrições, desvios de rotas e alterações operacionais derivadas da situação geopolítica.
As companhias aéreas latino-americanas lideram este ranking de eficácia, com uma taxa de pontualidade de 86,4%. Por sua vez, as companhias aéreas da Europa e da América do Norte registaram 79% de chegadas pontuais, mantendo também níveis elevados de cumprimento.

Um setor resiliente que se adapta a um novo cenário
No conjunto, os dados mostram uma indústria aérea que atravessa um período de transformação, mas que continua a demonstrar uma grande capacidade de adaptação. A procura continua a existir, embora agora os viajantes priorizem a proximidade, a segurança e a flexibilidade. Ao mesmo tempo, as companhias aéreas devem gerir um cenário marcado por maiores custos, incerteza operacional e previsões de crescimento mais moderadas.
A crise do Médio Oriente alterou temporariamente as regras do jogo, mas também está a revelar a resiliência de um setor que continua a ser essencial para a mobilidade global. Tudo aponta que, nos próximos meses, as companhias aéreas que melhor saibam se adaptar às novas preferências dos viajantes e otimizar as suas operações serão as que conseguirão manter a sua competitividade, num contexto cada vez mais exigente.